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What you see isn’t a ship! At 385 metres long, the Havfarm is actually the world’s largest offshore salmon farm.

Worker in orange gear on a boat near offshore platform under a clear sky.

De longe, parece um cargueiro a cruzar o horizonte gelado da Noruega.

De perto, revela uma função bem mais inesperada.

O colosso de aço que corta o Mar Ártico não transporta contentores, carros ou turistas de cruzeiro. Em vez disso, alberga milhares de peixes confinados em estruturas circulares gigantes. É o Havfarm, um híbrido entre navio e plataforma offshore que vem redesenhar a forma como o salmão é criado em mar aberto.

Um “navio” de 385 metros que não leva passageiros humanos

Instalado a cerca de 5 km da costa norueguesa, o Havfarm 1 mede 385 m de comprimento por 59,5 m de largura. Em qualquer porto do mundo, passaria facilmente por um mega-cargueiro. A diferença está na função: no lugar de porões de carga, alberga seis enormes cercados circulares, com 50 m de diâmetro cada, concebidos para engordar até 10.000 toneladas de salmão ao mesmo tempo.

A estrutura em aço desce a mais de 30 m abaixo da superfície, como se fosse a quilha de um navio preso ao fundo do mar. O conjunto foi dimensionado para suportar ondas de até 10 m, algo comum nas áreas mais expostas do litoral norueguês. Em situações extremas, parte da plataforma pode ser elevada automaticamente para reduzir o impacto directo das ondas.

O Havfarm parece um cargueiro, opera como uma plataforma offshore e funciona, na prática, como uma quinta industrial de peixes em mar aberto.

O projecto foi concebido pela empresa de aquicultura Nordlaks, em parceria com o gabinete NSK Ship Design. A ideia nasce de um problema bem concreto: os fiordes, que tornaram a Noruega uma potência global do salmão, estão a chegar ao limite da capacidade ambiental e regulatória.

Por que levar o salmão para o alto-mar

A salmonicultura moderna enfrenta três grandes frentes de pressão: impactos ambientais em áreas costeiras, doenças e parasitas, e a crescente procura global por proteína animal com menor pegada de carbono. Os tradicionais anéis de plástico instalados em águas abrigadas já não conseguem equilibrar esse conjunto delicado.

Levar as quintas para áreas mais expostas no mar traz vantagens técnicas. As correntes são mais fortes, o que ajuda a dispersar resíduos orgânicos e melhora a oxigenação da água nas gaiolas. O fluxo constante reduz a concentração de patógenos e diminui episódios de falta de oxigénio, comuns em enseadas sobrelotadas.

Por outro lado, essas condições excedem a capacidade das explorações convencionais. Daí a aposta numa plataforma semi-submersível de grande porte, estável, que combina conceitos da indústria petrolífera com o desenho de um catamarã gigante.

Como o Havfarm muda o dia a dia da quinta de salmão

Em vez de depender de pequenos barcos de serviço a circular entre várias gaiolas, o Havfarm concentra tudo numa única estrutura. Trilhos internos permitem a circulação de carrinhos automatizados que fazem tarefas de rotina: distribuição de ração, inspecção visual e manutenção básica. Isto reduz significativamente o número de deslocações de embarcações de apoio, corta emissões e diminui riscos operacionais.

A energia chega por cabos vindos da costa, o que permite uma operação eléctrica estável, com menos geradores a gasóleo. O suporte logístico fica a cargo de um wellboat híbrido, um tipo de “camião-cisterna flutuante” capaz de transportar salmão vivo em tanques com controlo preciso de oxigénio e temperatura.

  • Menos barcos de apoio a circular diariamente
  • Mais automação dentro da própria estrutura
  • Consumo de energia concentrado e monitorizado
  • Manuseamento dos peixes mais controlado e previsível

Havfarm 2: quando a quinta começa a comportar-se como um navio

Se o Havfarm 1 é praticamente estático, ancorado num ponto fixo, o Havfarm 2, em desenvolvimento, leva o conceito um passo adiante. A segunda geração vai incorporar tecnologias típicas de navios de apoio offshore, como propulsores azimutais Rolls-Royce TT1100, capazes de girar 360° e auxiliar na manobra da estrutura.

Esse sistema trabalha em conjunto com o posicionamento dinâmico (DP), um conjunto de sensores e software que mantém o “navio-quinta” orientado em relação às ondas e ao vento. Com isso, a estrutura pode girar em torno de um único ponto de ancoragem, distribuindo os resíduos no fundo marinho e evitando erosão e acumulação excessiva de dejectos num só local.

O Havfarm 2 pretende operar como um navio quase autónomo: capaz de girar, reposicionar-se e, em cenários extremos, até mudar de área de produção.

A longo prazo, o objectivo é permitir que a quinta se afaste de áreas com tempestades severas ou problemas ambientais pontuais. Em teoria, a estrutura poderia migrar entre diferentes zonas autorizadas, seguindo condições oceanográficas mais favoráveis.

Um laboratório flutuante de aquicultura “mais limpa”

Além da engenharia, o Havfarm funciona como campo de testes para práticas de produção consideradas mais sustentáveis pela própria indústria. Um ponto central são as chamadas “saias anti-piolho” em aço, que descem até 10 m de profundidade à volta dos cercados.

Essas barreiras físicas ajudam a proteger os peixes do piolho-do-mar, um crustáceo parasita que ataca a pele e as brânquias dos salmões. Em sistemas tradicionais, o controlo costuma depender de banhos químicos ou tratamentos repetidos, que geram custos e impactos ambientais. No Havfarm, a ideia é reduzir a necessidade desses produtos ao bloquear parte dos parasitas por concepção.

Em paralelo, a Nordlaks aposta noutros dois pilares:

  • Produção de smolts maiores, peixes juvenis que chegam ao mar mais robustos e menos vulneráveis.
  • Wellboats movidos a gás natural liquefeito (GNL), com capacidade de até 600 toneladas de salmão vivo e menor emissão de poluentes atmosféricos.

A combinação procura uma produção mais distante da costa, com maior controlo sanitário e menor pressão sobre os fiordes, que já enfrentam críticas de comunidades locais e grupos ambientalistas.

Como o Havfarm se compara às quintas convencionais

Os números ajudam a perceber o salto de escala e de conceito entre o “navio-quinta” e uma estrutura tradicional de criação de salmão.

Critério Havfarm Quinta tradicional
Localização Mar aberto, cerca de 5 km da costa Fiordes e enseadas abrigadas
Estrutura Plataforma de aço semi-submersa Anéis flutuantes de plástico
Dimensões típicas 385 m de comprimento, 59,5 m de largura Gaiolas de 50 a 70 m de diâmetro
Resistência às ondas Até cerca de 10 m Entre 2 e 4 m
Capacidade de produção Até 10.000 toneladas Em geral 1.000 a 3.000 toneladas por local
Tecnologia de movimento Propulsão, DP e rotação em torno da ancoragem Estruturas praticamente fixas
Defesa sanitária Saias metálicas anti-piolho Redes + banhos químicos
Gestão de impacto Dispersão de resíduos via rotação Acumulação local no fundo dos fiordes

O papel do Estado norueguês nesta viragem offshore

A Noruega trata o salmão como um activo estratégico, quase como faz com o petróleo. Por isso, o Havfarm não é apenas uma aposta privada. O governo criou uma categoria específica de licenças de investigação e desenvolvimento para projectos como este.

Estas licenças são atribuídas sem custo na fase de testes, permitindo às empresas assumir riscos tecnológicos maiores. Se as metas de desempenho ambiental e produtivo forem atingidas, parte dessas autorizações pode converter-se em licença comercial com desconto, criando um incentivo directo para inovar, em vez de repetir apenas o modelo dos fiordes.

Licenças experimentais funcionam como um empurrão financeiro: quem aceitar inovar em mar aberto ganha vantagem na etapa comercial.

Entidades do sector vêem este arranjo como uma forma de manter a Noruega na linha da frente da corrida pela aquicultura offshore, enquanto outros países ainda se prendem em disputas regulatórias mais básicas.

Um gigante silencioso em operação desde 2020

O Havfarm 1 está em operação desde 2020, ao largo de Ytre Hadseløya, no arquipélago de Vesterålen. A estrutura conseguiu manter uma produção estável em torno de 10.000 toneladas anuais, ao mesmo tempo que reduziu a carga de resíduos nas áreas mais sensíveis dos fiordes.

Relatos da própria Nordlaks indicam menor ocorrência de problemas sanitários em comparação com quintas convencionais, graças à combinação de água mais dinâmica, monitorização automatizada dos peixes e barreiras contra parasitas. A frota de barcos de serviço, que antes fazia viagens constantes entre várias unidades, perdeu protagonismo para sistemas robotizados fixos à estrutura, o que diminuiu emissões e tempo de manobra.

Entretanto, o Havfarm 2 ainda passa por ajustes de projecto e negociações regulatórias. O interesse não se limita à Noruega: outros países nórdicos e investidores asiáticos acompanham de perto o desempenho real de custo, risco e retorno deste tipo de mega-plataforma.

Riscos, desafios e o que está em jogo

Levar a produção de proteína para o alto-mar não garante, por si só, baixo impacto ambiental. Mesmo mais dispersos, os dejectos de milhares de toneladas de peixe continuam a chegar ao fundo. Se a rotação não for bem planeada, há risco de criar zonas degradadas em áreas novas, fora do olhar quotidiano das comunidades costeiras.

Tempestades mais fortes também exigem protocolos de segurança rigorosos. Uma falha estrutural numa unidade deste porte, com ruptura de gaiolas, poderia libertar milhões de peixes de cativeiro no oceano, gerando impactos sobre populações selvagens, competição por alimento e questões genéticas.

Há ainda a dimensão económica. Construir um Havfarm custa muito mais do que um conjunto de anéis de plástico num fiorde. O modelo só se sustenta se a produtividade for alta, as perdas forem baixas e o mercado mantiver disposição para pagar por salmão certificado como mais sustentável e rastreável.

Alguns conceitos que vale a pena entender melhor

Piolho-do-mar: pequeno crustáceo que se fixa na pele do salmão, criando feridas e abrindo portas a infecções. Em ambientes de alta densidade, como quintas em fiordes, prolifera rapidamente, pressionando o uso de químicos e tratamentos mecânicos, como banhos em água morna.

Smolt: fase em que o salmão jovem passa do rio para o mar. Nas explorações modernas, os smolts ficam mais tempo em água doce ou salobra, em tanques controlados, e vão para o mar maiores e mais fortes. No Havfarm, isso significa peixes com maior probabilidade de se adaptarem ao ambiente do alto-mar com menos perdas.

Posicionamento dinâmico (DP): tecnologia usada na indústria petrolífera para manter navios exactamente sobre um poço submarino. No contexto do Havfarm 2, serve para orientar a plataforma na direcção das ondas, reduzir esforços estruturais e escolher para onde vão os resíduos da criação.

Cenários futuros para quintas offshore gigantes

Se o modelo Havfarm se mostrar economicamente viável, abre espaço para cenários que, até há pouco tempo, pareciam futuristas. É possível imaginar clusters de plataformas semelhantes, a funcionar como “distritos industriais” flutuantes de aquicultura, partilhando logística, manutenção e monitorização remota por satélite.

Outra possibilidade é combinar este tipo de estrutura com geração de energia renovável em mar aberto, como parques eólicos offshore ou sistemas de energia das ondas. Uma mesma área poderia, em teoria, produzir proteína e electricidade, com infra-estrutura de cabos e portos de apoio integrada.

Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que estes projectos tenham transparência de dados: medições públicas de qualidade da água, biomassa, uso de medicamentos e taxas de mortalidade. A tecnologia que permite operar um “navio-quinta” quase autónomo também torna mais difícil esconder indicadores de desempenho ambiental. Isto pode tornar-se um diferencial de mercado para quem cumprir padrões elevados com rigor técnico.

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