Em plena época de festivais de verão na Europa, cientistas aproveitaram o bom tempo, copos cheios e nuvens de mosquitos para testar uma suspeita curiosa.
Entre concertos, bancas de comida e muita cerveja, um grupo de investigadores montou um laboratório improvisado e fez uma pergunta desconfortável: será que aquilo que bebe altera o quanto se torna alvo de picadas? A resposta retirada dos dados não é animadora para quem gosta de uma cerveja bem fresca.
Cerveja no copo, mais mosquitos no braço
O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade de Radboud, nos Países Baixos, durante o festival Lowlands, um dos mais conhecidos do país. Em contentores marítimos convertidos em laboratório, cerca de 500 voluntários aceitaram pôr, literalmente, o braço à prova.
Cada participante respondeu a um questionário sobre hábitos de higiene, alimentação, consumo de álcool e comportamento no festival. Depois veio o desafio: colocar o braço dentro de uma espécie de “caixa de teste”, cheia de mosquitos fêmeas do género Anopheles - os mesmos capazes de transmitir malária em várias regiões do mundo.
Dentro da estrutura, uma câmara registava quantos mosquitos pousavam na pele da pessoa e quantos eram atraídos por um dispensador de açúcar colocado no lado oposto. A ideia era simples: comparar a preferência dos insectos entre um lanche açucarado e um braço humano real, em condições controladas.
Os participantes que tinham bebido cerveja nas 12 horas anteriores eram 1,35 vezes mais atractivos para os mosquitos - um aumento de 35% no risco de servir de banquete.
Os resultados foram publicados a 26 de Agosto de 2025 na plataforma científica bioRxiv e chamaram a atenção por confirmarem algo que muita gente já suspeitava: certas pessoas parecem ser “ímanes de mosquito” - e a cerveja pode ter parte da culpa.
Como a cerveja mexe com o seu corpo
O consumo de álcool já é conhecido por afectar o cérebro, o fígado, o coração e o metabolismo de várias formas. A investigação holandesa levanta um ponto menos óbvio: o impacto na forma como os mosquitos percebem o nosso corpo.
Uma das hipóteses discutidas pelos cientistas é que a cerveja altera a composição química do sangue e da pele, tornando o “cheiro” corporal mais atractivo para os insectos. Outra linha de explicação envolve o calor.
A cerveja pode intensificar a vasodilatação na pele, aumentando a temperatura à superfície e a libertação de compostos que funcionam como um sinal de “aqui há sangue fresco”.
O professor Nigel Beebe, especialista em mosquitos da Universidade de Queensland, sugeriu que o álcool tende a criar uma assinatura térmica mais forte e uma identidade olfactiva mais marcante à volta do corpo. Em termos simples: fica mais quente e exala um “perfume biológico” mais fácil de localizar no escuro.
Isto soma-se a outro factor já bem estabelecido: a atracção dos mosquitos pelo dióxido de carbono (CO₂) que exalamos ao respirar. Pessoas que bebem e se mexem mais - a dançar e a conversar - tendem a libertar mais CO₂ por minuto, o que funciona como um verdadeiro farol químico.
Não é só a cerveja: o “pacote hedonista”
O estudo não encontrou a mesma associação clara entre outras bebidas alcoólicas, como o vinho, e o aumento da atracção por mosquitos. A cerveja destacou-se no grupo. Mas os investigadores perceberam que a história não termina aí.
Outros comportamentos, típicos de quem está a aproveitar um festival de verão, influenciaram as picadas. No relatório, os cientistas destacaram um perfil bem específico:
- quem bebe cerveja com frequência;
- quem costuma evitar o uso de protector solar;
- quem partilha a cama ou o colchão com outra pessoa.
Este “combo” foi descrito pelos autores como o favorito dos mosquitos, que pareciam preferir os mais hedonistas - aqueles que estão ali para aproveitar tudo sem grande preocupação com cuidados básicos.
Porque é que partilhar a cama atrai mosquitos?
Dois corpos na mesma cama significam mais calor, mais CO₂ e um cocktail maior de odores corporais. Para o mosquito, é como ver um anúncio de “buffet livre”. A nuvem química que se forma no quarto torna-se mais intensa e mais fácil de seguir à distância.
Já a ausência de protector solar pode ter duas consequências. Primeiro, mais pele exposta e menos barreira física ou química. Segundo, muitos protectores contêm substâncias que interferem com o cheiro natural da pele, o que pode confundir o olfacto do mosquito. Quem salta esse passo torna-se um alvo mais “puro” e fácil de detectar.
Factores que aumentam ou reduzem as picadas
Embora o foco do estudo tenha sido a cerveja, outros elementos já conhecidos pela ciência ajudam a completar o puzzle de quem sofre mais com as picadas. Eis alguns pontos frequentemente citados em pesquisas sobre mosquitos:
| Factor | Efeito provável |
|---|---|
| Consumo recente de cerveja | Aumenta a probabilidade de atracção em cerca de 35% |
| Uso de repelente ou protector com repelente | Reduz a quantidade de picadas |
| Actividade física intensa | Aumenta o CO₂ e o suor, atraindo mais insectos |
| Roupa clara e comprida | Dificulta a aterragem e a picada |
| Partilhar cama | Aumenta calor e odores, favorecendo a aproximação |
Verão, cerveja e risco de doenças
Beber uma cerveja e levar mais picadas pode parecer, à primeira vista, apenas um incómodo. Em muitas regiões, porém, este detalhe tem peso em saúde pública. Mosquitos do género Anopheles, usados na experiência, estão ligados à transmissão da malária em vários países. Outros géneros, como o Aedes, transmitem dengue, chikungunya e zika.
Quanto mais picadas uma pessoa recebe, maior a probabilidade de encontrar um insecto infectado. Em áreas endémicas, um hábito social aparentemente inofensivo pode, na prática, aumentar o risco de adoecer - sobretudo se for combinado com noites ao ar livre, roupa curta e ausência de repelente.
O aumento de 35% na atracção por mosquitos não significa 35% mais cerveja, e sim 35% mais oportunidades de ser picado.
Este dado ganha relevância em concertos, acampamentos, festas no campo ou viagens a regiões tropicais, onde o contacto constante com mosquitos já faz parte da rotina.
Como quem gosta de cerveja pode proteger-se
Para quem não pretende largar o copo tão cedo, algumas medidas práticas ajudam a reduzir o número de picadas, especialmente em alturas com maior circulação de mosquitos:
- aplicar repelente nas áreas expostas do corpo e reaplicar conforme a indicação do rótulo;
- usar protector solar durante o dia e, quando possível, optar por produtos que também ofereçam alguma protecção contra insectos;
- preferir roupa mais comprida ao anoitecer, mesmo em ambientes de lazer;
- evitar acumular latas, copos e lixo à volta, que podem servir de criadouros em locais com água parada;
- em quartos sem rede mosquiteira, usar mosquiteiro, ventoinha ou ar condicionado, que dificultam o voo dos insectos.
Porque é que alguns parecem ser o “prato principal”
Muita gente pergunta porque é que uma pessoa volta cheia de marcas de picada e outra, ao lado, fica praticamente intacta. A ciência ainda não tem uma resposta única, mas há pistas em estudos recentes.
Genética, microbiota da pele (as bactérias que vivem sobre nós), tipo de suor, dieta e até a fase do ciclo hormonal podem alterar a forma como cheiramos para um mosquito. A cerveja entra neste cenário como mais um factor modulador, capaz de mudar temporariamente esse “perfil aromático” que o insecto aprende a reconhecer.
Uma forma simples de visualizar isto é imaginar uma pista de dança vista de cima por um mosquito: entre dezenas de pessoas, algumas emitem mais calor, mais CO₂ e um cheiro corporal mais forte. Se parte desse grupo também bebeu cerveja, o conjunto de sinais torna-se ainda mais intenso.
O que este tipo de estudo ajuda a antecipar
Pesquisas em ambientes reais, como festivais de música, dão pistas para estratégias de saúde pública. Organizadores de grandes eventos ao ar livre, por exemplo, podem usar estes dados para planear campanhas de orientação sobre repelentes e horários de maior risco, combinadas com o incentivo ao consumo responsável de álcool.
Para o leitor comum, compreender esta ligação ajuda a antecipar cenários: uma viagem a uma zona com malária ou dengue, combinando trilhos, rios, noites ao ar livre e muitas cervejas, pode ser repensada com alguns ajustes simples. Não se trata de demonizar a bebida, mas de perceber como hábitos aparentemente desconectados, quando se somam, criam um ambiente perfeito para os mosquitos “fazerem a festa”.
Comments
No comments yet. Be the first to comment!
Leave a Comment