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A world first: South Korea develops a plasma torch that could revolutionise plastic recycling.

Scientist in a lab coat and face shield using a blowtorch on a metal device, surrounded by lab equipment.

No silêncio dos laboratórios sul-coreanos, uma nova tecnologia promete virar de cabeça para baixo a forma como lidamos com o lixo plástico.

Enquanto governos discutem metas climáticas e as cidades se afogam em embalagens descartáveis, uma equipa de investigadores na Coreia do Sul afirma ter dado um passo decisivo para mudar o jogo: transformar resíduos plásticos mistos em matéria-prima de alto valor, sem depender da queima tradicional.

Uma promessa que mira o calcanhar de Aquiles do plástico

Hoje, o plástico é reciclado à escala global de forma limitada e, muitas vezes, poluente. Uma parte é reaproveitada mecanicamente, outra é incinerada para gerar energia, e uma fracção gigantesca termina em aterros, rios e oceanos. Mesmo tecnologias vistas como “avançadas”, como a pirólise, ainda geram resíduos, fumos tóxicos e emissões significativas de gases com efeito de estufa.

É precisamente esse ponto fraco que o Korea Institute of Machinery & Materials (KIMM) diz ter atacado com uma inovação considerada “uma estreia mundial”: uma tocha de plasma capaz de desintegrar plásticos diversos em fracções de segundo e convertê-los directamente em insumos químicos usados pela indústria.

A tocha de plasma não só destrói o plástico quase por completo, como o converte em matérias-primas reutilizáveis, sem depender de combustíveis fósseis adicionais.

O anúncio, feito em 4 de Setembro de 2025, chamou atenção por um motivo simples: se funcionar à escala industrial, este processo pode transformar sacos, embalagens e restos misturados em benzeno e etileno - dois blocos básicos da indústria petroquímica.

Da pirólise ao plasma: o que muda na prática

Para entender a novidade, vale comparar com a pirólise, técnica já usada em alguns países. Nela, o plástico triturado é aquecido sem oxigénio a temperaturas em torno de 600°C. O resultado é uma mistura de óleos, gases e resíduos sólidos. Parte vira combustível, parte não serve para nada e precisa de ser descartada novamente.

O processo ainda liberta gases com efeito de estufa, exige bastante energia e não resolve totalmente o problema da toxicidade, especialmente quando se trata de plásticos mistos e sujos.

Como funciona a tocha de plasma sul-coreana

Na solução testada pelo KIMM, a lógica é mais radical. Em vez de “cozinhar” o plástico lentamente, os investigadores usam um jacto de plasma - um gás ionizado, extremamente quente - para quebrar as moléculas em muito pouco tempo.

  • Temperatura típica da pirólise: até cerca de 600°C
  • Temperatura do plasma desenvolvido na Coreia: entre 1.000°C e 2.000°C
  • Tempo de desintegração do plástico: cerca de 0,01 segundo
  • Produtos principais: benzeno e etileno, usados para fabricar novos plásticos

Por outras palavras, o plástico não é simplesmente derretido: é quebrado em componentes químicos básicos em questão de centésimos de segundo. Esses componentes podem regressar à cadeia produtiva como se fossem derivados de petróleo virgem.

Ao transformar lixo plástico em benzeno e etileno, o processo aproxima o resíduo do estatuto de “mineração urbana”: uma fonte contínua de matéria-prima reciclável.

Porque é que o uso de hidrogénio chama atenção

Um dos pontos mais comentados do projecto é a fonte de energia da tocha. Segundo o instituto, o sistema é alimentado por hidrogénio. A escolha não é neutra: em teoria, usar hidrogénio verde (produzido a partir de energias renováveis) pode reduzir drasticamente a pegada de carbono do processo.

Na prática, isso abre duas possibilidades importantes:

  • Reduzir ou quase eliminar as emissões associadas ao próprio processo de reciclagem
  • Integrar a solução em futuros “hubs” industriais movidos a hidrogénio, já considerados em vários países

Claro que tudo depende da origem desse hidrogénio. Se for produzido a partir de gás natural sem captura de carbono, o benefício ambiental diminui bastante. Mas o desenho da tecnologia já nasce alinhado com uma tendência global de descarbonização.

Potencial impacto sobre o “mito do reciclável”

Nos últimos anos, relatórios como o publicado pela Greenpeace em 2022 têm questionado a narrativa de que o plástico é amplamente reciclável. Na prática, a maior parte dos resíduos plásticos nunca volta a virar produto. Muitos têm composição complexa, formatos variados, cores e aditivos que dificultam qualquer reaproveitamento.

A proposta coreana tenta precisamente contornar esse estrangulamento: plásticos mistos, que normalmente não compensam o esforço de triagem, poderiam alimentar directamente reactores de plasma.

Tipo de plástico Reciclagem tradicional Potencial no processo de plasma
Embalagens mistas (multicamadas) Quase sempre rejeitadas Poderiam ser convertidas em insumos químicos
Plásticos sujos de alimentos Baixo valor, fricção nas cooperativas Tratados como alimentação de reactor, sem foco na aparência
Plástico colorido Dificuldade de reutilização em produtos de alto valor A cor deixa de ser problema, já que vira moléculas básicas

Isto não significa uma solução milagrosa. A própria equipa sul-coreana ainda precisa de demonstrar viabilidade à escala, custos competitivos e segurança operacional. Mas o conceito ataca uma das partes menos “glamorosas” da crise do plástico: o resíduo misto, sujo, sem mercado.

Desafios para transformar laboratório em indústria

Toda tecnologia com potencial de grande impacto ambiental enfrenta a mesma travessia: sair do protótipo e chegar a unidades comerciais que funcionem 24 horas por dia. Com a tocha de plasma, não é diferente.

Pontos críticos a acompanhar

  • Custo de implantação das unidades de plasma em comparação com incineradores e pirólise
  • Consumo de energia e de hidrogénio por tonelada de plástico tratado
  • Controlo de emissões secundárias, mesmo em processos de alta temperatura
  • Estabilidade da operação com lixo real, e não apenas plástico “perfeito” de laboratório

Outro ponto sensível é a logística. Em muitos países, o problema começa bem antes da tecnologia de reciclagem: recolha incompleta, falta de triagem adequada e baixa integração com cooperativas e operadores locais. Uma unidade de plasma precisa de alimentação contínua de resíduos, o que exige sistemas organizados de recolha e contratos de fornecimento.

Sem uma cadeia de recolha eficiente, até a tecnologia mais avançada corre o risco de ficar subutilizada, tratada como montra e não como solução de massa.

Como esta tecnologia poderia dialogar com o Reino Unido

Se um processo como o da Coreia do Sul chegar ao mercado, países com grande consumo de plástico e desafios persistentes com resíduos tornam-se candidatos naturais para parcerias - e o Reino Unido teria interesse directo.

Num cenário hipotético, cidades de média dimensão poderiam ter unidades de plasma integradas em centros de triagem. Os recicláveis de maior valor seguiriam para a reciclagem mecânica tradicional, enquanto o “resto” - filmes, saquetas, embalagens multicoloridas e contaminadas - alimentaria a tocha de plasma.

Isto poderia reduzir a pressão sobre aterros, cortar custos de transporte de resíduos para locais distantes e criar uma nova frente de negócio ligada à venda de benzeno e etileno de origem reciclada. Empresas que hoje compram matéria-prima petroquímica poderiam, em teoria, incorporar uma fracção “circular” nos seus insumos.

Alguns termos a ter no radar

Três conceitos costumam aparecer quando se fala deste tipo de inovação e, muitas vezes, geram confusão:

  • Plasma: é considerado o “quarto estado” da matéria. Não é sólido, líquido nem gás. Trata-se de um gás tão aquecido que os seus átomos se separam em iões e electrões livres.
  • Reciclagem química: ao contrário da reciclagem mecânica, que tritura e derrete o plástico, a química quebra as moléculas em unidades menores, que depois podem virar matéria-prima semelhante à original.
  • Hidrogénio verde: produzido a partir de fontes renováveis como eólica e solar, por electrólise da água. Tem uma pegada de carbono muito menor do que o hidrogénio obtido a partir de gás ou carvão.

Uma combinação possível no futuro é integrar unidades com tocha de plasma em pólos de produção de hidrogénio verde e em parques industriais que exigem insumos químicos. Nessa configuração, resíduos urbanos, energia renovável e indústria pesada passariam a ligar-se de forma mais directa.

Por outro lado, existe o risco de que soluções tecnológicas sirvam de justificação para manter - ou até aumentar - a produção de plástico virgem, sob a promessa de que “depois dá para reciclar tudo”. Sem políticas de redução na origem, mudanças em embalagens e incentivos à reutilização, nenhuma inovação isolada dá conta do volume crescente de descartáveis que circula no planeta.

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